OLIVEIRA, Paulo de Tarso Roma de. FETICHE DA MERCADORIA: Uma breve reflexão sobre a teoria de Marx.
 
REVISÃO DA LITERATURA
           
     Fetiche da mercadoria é um conceito proposto por Marx (1975) a partir da revisão que faz da economia clássica reinante, que focava na mercadoria a partir de sua produção e na lei da oferta e da procura, que seria responsável por definir as bases da relação mercantil. Desta forma, a mercadoria encerra em si um valor mercantil que é aquele instituído monetariamente, ou seja, o custo necessário a se desembolsar para obtê-la. Uma vez finalizado o processo de venda e transferência da mercadoria para o comprador, ela encerra o seu ciclo mercantil para, só então, resgatar seu conceito predecessor, que era o de uso, observado nas sociedades ainda não mercantilizadas. O segundo se sobrepõe ao primeiro por força dos mecanismos estruturais observados no capitalismo.
     Marx constrói um marco divisório ao promover a migração de um olhar trivial para um olhar marcado por “sutilezas metafísicas” (Marx, 1975, p. 79) para a mercadoria, pois ele vislumbra seu fatídico apogeu - a mercadoria que era vista como algo que incorporava um valor de uso que se manifestava na satisfação dos prazeres humanos, agora passa por uma mutação que lhe confere aptidões imateriais. O autor assim se refere ao caráter místico da mercadoria:
 
“a mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho” (Marx, 1975, p. 81).
 
      Observamos, a partir destas considerações feitas por Marx, que antes mesmo de elaborar qualquer conjectura a respeito do fetiche da mercadoria, ele já resgata questões voltadas às formas de produção, pois entende que é a partir delas que o conceito poderá ser ratificado, pois cria-se o “mundo das mercadorias” que é marcado pela coisificação das relações humanas, as quais passam a ser niveladas pelas mercadorias que a própria mão de obra humana produziram, com todos os aspectos pertinentes às relações que se estabeleceram para tal. Um desses exemplos nos é trazido por Novaes e Dagnino (2004), que é a mais valia, pois logo que se produz a mercadoria, produz-se a mais valia como consequência da diferença entre o valor instituído para a mercadoria e o valor pago no processo de sua produção.  
     Outro conceito oculto no processo é a luta de classes, pela própria retórica por trás dos mecanismos de produção. Engels aproxima o conceito de desenvolvimento econômico da sociedade ao conceito de luta de classes ao associar esse desenvolvimento à consequente divisão da sociedade em classes historicamente distintas, que passam a operar de maneira específica os mecanismos de produção. A célebre afirmação de Marx de que a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes aponta para essa fragmentação sincrônica do tempo, impondo um desvendamento dos fenômenos econômicos e as relações de produção nele presentes para só depois se partir para uma compreensão a respeito das formas como as relações sociais se instituíam.
       Os mecanismos de produção maquiam a luta de classes a partir de uma valorização da mão de obra que na verdade não ocorre, pois a relação entre os envolvidos esconde a verdadeira realidade na qual se apóia.
       A mercadoria, portanto, encobre as características sociais do trabalho dos homens, porque o valor que aparece é o dela e não o valor do trabalho ou das relações estabelecidas no processo de produção. Assim, a mercadoria carrega em si ao mesmo tempo algo “perceptível e impalpável” (Marx, 1975, p.79). O perceptível aparece no que o produto é, no que faz, pelo seu design, pela sua funcionalidade, etc., o imperceptível por ocultar a exploração na qual se baseou a sua produção.
     A desumanização advinda do processo produtivo faz com que o homem não só seja o produtor da mercadoria, ma ele mesmo seja tratado como tal, e ambos são precificados, a mercadoria (objeto) por um valor definido pelo mercado, e o indivíduo (mercadoria) por um salário irrisório que fica distante do volume que produz em mercadoria e em valor.
            Por isso mesmo, em Marx o fetichismo não aparece estritamente vinculado ao consumo, mas ao preço. Ele assim define essa questão:
 
“O preço é a denominação monetária do trabalho objetivado na mercadoria [...] A grandeza de valor da mercadoria expressa [...] uma relação necessária imanente a seu processo de formação com o tempo de trabalho social. Com a transformação da grandeza de valor em preço, essa relação necessária aparece como relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria monetária, que existe fora dela” (Marx, 1975, p. 92).
 
     O valor, que para ele é irreal, incorpora e desperta a carga relacional entre as pessoas (entre quem fabrica os diversos tipos de mercadorias que circulam no mercado e quem as compram). Portanto, ao ser o valor a medida gerada pelo dinheiro, logo se conclui que o dinheiro é a força motriz do conceito de fetiche, já que é ele que ao circular de mão em mão dá poder às pessoas de terem bens e serviços.
     É uma reciprocidade necessária para que todo o conceito de fetiche se consolide: por um lado a mercadoria ter o poder de gerar dinheiro na sua produção, ainda que com base na mais valia presente na relação entre o patrão e o empregado, por outro lado na sua mercantilização, pois ela é precificada a partir de critérios dependentes de leis próprias de mercado (oferta e procura, tempo gasto em sua produção, matéria prima, impostos, logística de distribuição, etc.) que também escondem seu real valor. Nesse sentido Pires (1999, p. 144) afirma: “Assim, fica ainda mais difícil resgatar o trabalho humano como verdadeira fonte do valor, sendo o seu vestígio, presente no valor de uso, completamente obscurecido pelo véu do dinheiro, que é a materialização social uniforme do trabalho indistinto”.
 
REFERÊNCIAS
 
MARX, Karl. O capital (crítica da economia política). Livro 1: o processo de produção do capital. Vol. I. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
 
NOVAES, Henrique Tahan; DAGNINO, Renato. O fetiche da tecnologia e a visão crítica da ciência e tecnologia: lições preliminares. III encontro de investigadores latino-americanos de cooperativismo. 2004.
__________. O fetiche da tecnologia. ORG & DEMO, v. 5, nº 2, p. 189-210, 2004.
PIRES, Valdemir. Fetichismo na teoria marxista: um comentário. Revista impulso on-line. Disponível em: http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/imp22_23art09.pdf acesso em 08 Dez 2013.