A CIPÓS-G Cursos e Assessoria Acadêmica tem a honra de apresentar o artigo Preview do professor Paulo de Tarso Roma de Oliveira, que está compondo a equipe de elaboração da revista "Sociologia em Foco", em fase de registro. 
 
Professor Paulo de Tarso Roma de Oliveira é Graduado em Letras pela Faculdade São Bernardo (FASB), Pós-Graduado em Sociologia pela Faculdade Estácio de Sá, Mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e Doutorando em Ciências Socias pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) 
 

CÍRCULO DE BLOOMSBURY:

UMA REFLEXÃO SOBRE MÉTODO DE ANÁLISE DE GRUPOS

 

 

INTRODUÇÃO       

           

     Reunidos em Bloomsbury com o propósito de promover intercâmbios intelectuais, um grupo de amigos foi capaz de protagonizar um importante movimento histórico que ganhou relevância e se consolidou como um dos grandes movimentos de transformações do século XX. Sua relevância advém do fato de negarem qualquer conotação política em sua formação, bem como não se considerarem a si mesmos como grupo no sentido formal do termo, e até mesmo o fato de salientarem valores como afeto e amizade como pano de fundo dos seus encontros e, por outro lado, promoverem reflexões profundas sobre questões sociais, com ideias revolucionárias sobre muitos temas delicados. O fato de se auto intitularem "um grupo de amigos" e os mecanismos informais de sua formação grupal, deixaram poucos dados de estudos e promovem uma orientação da pesquisa para fenômenos históricos que transcendem seu próprio tempo e sugerem um recorte mais amplo em seu contexto histórico. É a sociedade de Bloomsbury, a crise de ordem social nela observada, e de outro lado o posicionamento ideológico do grupo dentro desta sociedade, que irão nos oferecer o material que permitirá entender os aspectos que possibilitam identificar sua relevância.   

 

PROBLEMAS RELACIONADOS À PESQUISA DE GRUPOS PEQUENOS

 

     A proposta do presente artigo é refletir problemas relacionados ao método de análise de grupos culturais. Isto ocorre de forma especial em grupos pequenos que surgem sem formalidades rígidas, organizados na espontaneidade e na própria diversidade de seus membros, e que algumas vezes não deixam evidentes, em seu nascedouro, uma proposta típica de formação grupal mais abrangente, com projetos definidos e ações e regras de funcionamento já delineadas. Outro problema de grande relevância para a pesquisa é a ausência de dados suficientes, pois por conta da informalidade os dados ficam sem registros; aqueles que são produzidos não são organizados como tais. Há de se considerar ainda a baixa quantidade desses dados, que não permitem comparações e análises mais profundas.
     Willians (2000) credita ao século XX a gestação destes grupos com menor formalidade em relação a regras estatutárias. De forma geral, os registros gerados possuem uma conotação narrativa, não intencional, e apontam mais o caráter espontâneo de sua formação, e raramente suas filiações ou engajamento em tipos específicos de lutas sociais.                                                                           Isto é bastante recorrente no caso do Bloomsbury, cujo próprio nome e sua identidade grupal foram classificações externas não reconhecidas por eles próprios à época: "o que veio a ser chamado de Bloomsbury pelo mundo externo nunca existiu na forma a ele dada [...]. Nós éramos e sempre nos mantivemos, essencial e fundamentalmente, como um grupo de amigos" (Woof apud Williams, 2011, p. 202).   O fato é que grupos como este possuem grande relevância histórica, ao mesmo tempo em que aspectos mais técnicos de análise ficam reservados a grupos maiores, com maior representatividade e organização mais definida.                                
     Em geral, os estudos de grupos culturais na Sociologia estão organizados a partir de centros de interesse determinados por seu tamanho, organização e estrutura, que possibilitam que os estudos sejam feitos a partir de métodos adequados a suas respectivas áreas. Estes grupos, interpretados a partir de seus respectivos corpus institucionais - educação / religião / etc., por estarem organizados a partir de elementos objetivos que traduzem sua função social, trazem menos problema para a pesquisa do que grupos menores, que nem sempre se utilizam de mecanismos de organização facilmente detectáveis.                                                              
     No caso específico de Bloomsbury, a redução à categoria de grupo a partir desta escala de significado é inevitável por conta da não equivalência entre sua pequenez e efemeridade - um grupo de amigos - e, por outro lado, sua gigantesca representação  histórica.                                                                             

 

AS RELAÇÕES COM O SISTEMA SOCIAL

 

        Embora este seja a priori um aspecto recorrente dentro do pensamento filosófico e social "há em geral ou especialização ou o descaso" (Williams, 2011, p. 202), os elementos intrínsecos a estes grupos menores podem fornecer dados de grande relevância para uma leitura mais ampla, que consiga nos situar em relações nem sempre reconhecidas ou diretas. Isto porque aquilo que ocorre em seu interior está permeado pelas discussões que advém de sua dimensão exterior, o que abre o primeiro aspecto a ser pensado em sua constituição, ou seja, os fatores unicamente relacionais, que contribuíram para sua formação, sejam ideias ou atividades partilhadas, ou algum fator que escape a eles próprios, advindo do ambiente externo e, consequentemente, de fenômenos sociais e culturais que sejam mais amplos. É o contexto em que estão situados que, em geral, pode fornecer elementos que permitam melhor entende-los.                                                                                                         É sempre essencial ao desenvolver esse tipo de pesquisa, que se tenha como aspecto central as influências, a identificação dos elementos exteriores que influenciaram a formação do grupo e sua forma de se constituir tanto do ponto de vista organizacional como também ideológico. Mas não apenas as influências externas de caráter sincrônico nos interessam, mas também as transformações externas ao longo de determinado período de tempo, pois os grupos caminham no rumo destas transformações, havendo uma tendência observável à integração da ordem social geral. Ou seja, não só caminham no rumo das transformações, mas exercem papel essencial para que aconteçam.                                                                        
     Com efeito, é possível promover o resgate de alguns grupos historicamente constituídos, e as mudanças/evoluções sofridas por eles a partir do que ocorria em seus respectivos mundos exteriores, como é o caso da organização interna das ordens bárdicas, que tiveram sucessivos estágios de mudança que distanciaram-na da ordem inicial rígida das regras de composição poética, sob efeito da política bárbara praticada na Inglaterra dos séculos XII e XIII. Estudos posteriores revelam  maior flexibilidade produtiva em consequência de mudanças políticas no século XIV que abriu a possibilidade de maior independência intelectual e produtiva: "a organização social interna dos poetas mudou no mesmo período dessa mudança artística específica" (Willians, 2000, p. 58).                                                                                
     Também em relação às corporações de ofício, inicialmente compostas por um grupo pequeno de trabalhadores que resolveram, dentro de um alojamento, se organizar em torno de interesses comuns, logo o efeito da pressão externa se pode  notar, ampliando sua potencialidade mercantil tendo em vista estarem "numa sociedade cada vez mais mercantil" (ibidem). Desta forma, no mesmo ritmo em que as condições de comércio se alteraram, o efeito foi sentido nestas corporações, de tal maneira que em pouco tempo já era possível perceber formas austeras de dominação e privilégios. A influência do ambiente social é de tal forma contundente, que tentativas posteriores de restaurar os antigos padrões fracassaram, e o que se via era cada vez mais as corporações adquirirem status diferentes, até mesmo a perda da autonomia decisiva frente às imposições capitalistas.                                            
     Há de se notar que estas mudanças se refletem até mesmo no âmbito das relações e como elas passam a se orientar, como no caso das academias, alteradas de forma vertical pela substituição do rígido aspecto religioso, em consequência do declínio da influência da Igreja nas artes, para uma produção mais autônoma, e a respectiva transformação de sentido das relações anteriormente observadas à época das corporações, em que o ato de produzir arte tinha caráter profissional, portanto era um "treinamento para um ofício" (Willians, 2000, p. 60), e passa a ter caráter artístico. Desta forma o local se torna academia, ao passo que a relação mestre-aprendiz se transforma em relação professor-aluno. Com isso a arte ganha autonomia e se transforma em artes em seu sentido estrito.                                        
     Como podemos ver, os efeitos externos se voltam para o ambiente interno destes grupos pequenos e promove alterações significativas, e a partir desta análise, que agora pode ser comparativa e até mesmo analítica, se consegue abstrair informações pertinentes ao estudo dos mesmos, pois uma pesquisa de artes baseada em sua origem e evolução fatalmente terá que chegar às corporações de ofício e compreender sua formação, funcionamento e evolução. Assim, a irrelevância que este grupo teria do ponto de vista da pesquisa social deixa de existir por estar inserido em um campo de estudo que transcende a si mesmo - a história da arte ou a história das academias de arte.                              
     Diversos outros casos similares foram observados em relação a determinados padrões que orientaram formações iniciais de grupos, mas não se perpetuaram como forma rígida de sua organização interna e sua ação social. Especialmente no caso de grupos menores, a exemplo de Bloomsbury, não é possível falar de uma consciência histórica que lhes permitiu identificar esse caráter identitário; e é esta investigação posterior que traz à tona, a partir de métodos analíticos e comparativos, determinadas especificidades  que não foram imediatamente percebidas.         

 

AS INDIVIDUALIDADES  E OS SENTIMENTOS

 

      O efeito das influências externas na formação dos grupos, aparece também no tocante a tradição familiar. Como forma de sinalizar mais atentamente a esta questão, Willians (2011) nos apresenta o conceito de aristocracia intelectual que foi desenvolvido por Lord Annan. O interessante nesse estudo é a generalização da aristocracia, assim definida como grupo, em torno de todos aqueles que estavam situados em seu interior, sem consideração pelas individualidades. Até que ponto determinadas singularidades são definidas ou definidoras?                                                           
     O primeiro aspecto pensado por Annan é o efeito externo que implica no reconhecimento da patente familiar e suas consequências; o segundo aspecto é o grupal propriamente dito, pois distinções poderiam gerar consequências complexas para sua definição de grupo aristocrata. Em suma, o critério de definição de grupo independe das singularidades. Pensar estas duas dimensões sob a perspectiva do Círculo de Bloomsbury é tão necessária quanto essencial pelas mesmas características internas de sua configuração, ou seja, a individualidade dos participantes abre caminho para polarizar sua importância, enquanto grupo, em contrapartida às suas singularidades. É importante notar que esta digressão apenas acentua certas dificuldades, considerando que o aspecto primordial é compreender o grupo em sua instituição como tal e, portanto, sobrepor este aspecto reducionista voltado à individualidade de seus participantes. Williams procura ressaltar a distinção que existe entre estas duas dimensões, grupal e individual, até mesmo por considerar ser bastante recorrente na formação de diversos grupos culturais modernos. Por outro lado, é justamente esta questão que impõe a necessidade da pesquisa, tendo em vista o que o caracteriza como grupo em sua formação e, por outro lado, sua relevância geral.                              
     No tocante aos principais formadores deste Círculo, há uma ênfase dupla: inicialmente a franqueza no dizer o que pensavam e sentiam; e também clareza, no sentido de se compreender exatamente o significado de determinadas declarações feitas entre eles.  A partir do relato produzido por Woolf, que cobre quase uma década - 1904 a 1911- tem-se a clara noção de uma evolução na intimidade que se produziu entre eles, tanto no tratamento formal como também na maior intimidade nos diálogos, assim como no desenvolvimento de uma ideologia de revolução prestes a construir uma nova sociedade.                                                                         
     O aspecto estruturante grupal é identificado também a partir de sua estrutura de sentimento que exige algumas considerações com movimentos específicos de alguns de seus componentes no âmbito da participação política e na formação de uma consciência social, materializada a partir de atividades como as de Leonard Woolf e Keynes na esfera política, mais especificamente o intenso trabalho junto a Liga das Nações. Este foi um trabalho bastante significativo de oposição ao imperialismo, feito junto às Cooperativas e o Partido Trabalhista. Virgínia Woolf também teve atuação considerável junto à Associação Corporativa das Mulheres. Há de se considerar os desdobramentos destas atividades quando se reflete sobre as considerações a respeito deste embate interno no âmbito da classe dominante, tendo, uma parcela significativa sua, a plena consciência de classe e a polarização entre classe alta e baixa, e por outro lado esta outra parte tendo desenvolvido uma consciência de luta ("preocupação com os de baixo"), sendo estes marcados de forma substancial com sentimentos fortes e reais de simpatia com a classe baixa que foram relevantes do ponto de vista da formação desta consciência social. Trata-se de uma ação política visando um fim específico, que é a reforma desta mesma classe dominante. É importante considerar o fato de ter havido reformas políticas e sociais de grande relevância, e isto torna-se um dado de análise importante a ser considerado ao se fazer a conexão entre esse "pequeno grupo de amigos" e esta grande influência política e social.                                                              
     Portanto, fica claro que grupos (pequenos) podem ser, na verdade, subgrupos que partilham ideias dissidentes pertencentes aos grupos dos quais eles são uma parcela, que no caso de Bloomsbury fica bastante evidente por serem seus membros uma fração ínfima - apenas um grupo de amigos - da classe dominante, e a consequência que talvez de imediato não seja percebida, mas que a partir de pesquisas históricas venham a ser reveladas; é que são estes grupos pequenos que matizam as sementes que podem revelar as transformações de uma classe em sua totalidade.                  Mas não apenas isto, pois nem todos os pequenos grupos são parcelas dissidentes de grupos maiores. Os grupos podem emergir à deriva de qualquer relação de classe dominante, como é o caso de Godwin e seu círculo, que eram pobres e sem qualquer influência social ou política. Reconhecidos pela polarização entre suas ideias e a intolerância da classe dominante, qualquer aspecto de natureza interna grupal torna-se irrelevante, ao passo que consideradas sua postura irredutível de romper com um sistema totalitário e promover valores racionais e civilizatórios de igualdade em substituição aos valores distintivos de classe, suas ações em prol da igualdade tornam-se relevantes para materializar seu momento histórico por eles vividos.

 

A IMPORTÂNCIA DO DISTANCIAMENTO HISTÓRICO

 

     A inserção de Godwin e seu círculo, bem como da Irmandade Pré-Rafaelita na discussão relacionada aos problemas de método de análise de grupos culturais ganha relevância, e isto se dá a partir do distanciamento histórico em relação a estes grupos e, também, o resgate de como se deu determinado desenvolvimento no seio da cultura que estavam inseridos.  Willians é categórico ao afirmar a vantagem de se estar distante historicamente.                                                                                
     Para materializar esta questão, o autor se insere na metade do século XIX, momento do auge da Irmandade Pré-Rafaelita e as implicações ou impacto deste grupo na reforma observada na burguesia inglesa, envolvendo principalmente reformas institucionais. Mas não apenas isto, mas também os desdobramentos que se sucederam, de tal modo que a própria formação do Círculo de Bloomsbury é reflexo destas mudanças observadas, pois por estarem nos centros universitários que foram reorganizados a partir do movimento do grupo predecessor há três gerações passados, tinham o ambiente necessário para florescer o tipo intelectual que iria constituir seus iminentes formadores.                                                                                 
     Portanto, a formação sociológica do Círculo de Bloomsbury já se dá no seio desta aristocracia "transformada" pelas sucessivas gerações que favoreceram sua consolidação social e cultural, de tal forma que, imersos em sua realidade aristocrata[1], seus membros fundantes compartilham de uma esfera social extremamente privilegiada no campo intelectual e profissional, inclusive com conexões significativas com a classe como um todo; em segundo lugar, devem ser consideradas as contradições no interior desta classe dominante, pois notadamente os esforços para a manutenção do status quo incluíam ações exigidas pela própria capacidade intelectual de seus membros em favor da manutenção das instituições que favoreciam esta classe, em uma diversidade de áreas; em terceiro lugar Williams (2011) coloca uma segunda contradição, que é a solidariedade intelectual de parcela significativa de mulheres nesta classe dominante e sua exclusão sistemática das instituições masculinas dominantes e formativas; por fim, há de se considerar a crise interna nesta classe social, gerada por tensões de ordem intelectual e profissional.
     Consideradas estas questões, a formação do Círculo de Bloomsbury se dá como uma crítica de natureza institucional e de gênero, pois, como vimos anteriormente, enquanto a classe dominante atuava de forma contundente para promover a manutenção das instituições que a mantinham (monarquia, aristocracia, Exército, Igreja, etc.), os dissidentes lutavam em prol dos da classe de baixo "preocupação com os de baixo"; por outro lado, enquanto as mulheres vivenciavam essa exclusão das instituições formativas, era formada a bandeira da luta pela igualdade, sentido posteriormente pela liberalização no plano das relações pessoais. 

 

A CONTRIBUIÇÃO DE BLOOMSBURY

 

    No intuito de conhecer o caráter das contribuições culturais, intelectuais e artísticas de Bloomsbury é necessário rever os problemas de natureza teórica e metodológica que implicam no reconhecimento de sua importância histórica. De novo nos vemos às voltas com a ideia persistente de grupo sem nenhuma pretensão ideológica, até mesmo considerando suas participações individuais mais relevantes como fenômenos naturais, típicos do talento e do potencial de cada um para promover contribuição em suas respectivas áreas. Essa ausência de caráter formal ao grupo, bem como essa simplificação excessiva do seu potencial acabam gerando, no parecer de Williams (2011), as pistas que podem promover a compreensão de sua importância histórica. O que nos interessa não é mais aquilo que afirmam, mas aquilo que negam, de forma especial o caráter descritivo apresentado por Woolf (apud Williams, 2001, p. 223) quando afirma: "[...] nós não tínhamos uma teoria, sistema ou princípios em comum que quiséssemos converter para o mundo; não éramos proselitistas, missionários, cruzados ou mesmo propagandistas".                                               Nesse sentido, as produções individuais foram desvinculadas do grupo, ganhando ressonância como conquistas individuais, resultado do talento de seus protagonistas; de forma especial o destaque para as teorias econômicas de Maynard, e o sucesso alcançado por Roger, Vanessa, Duncan e Clive no movimento de arte pós-impressionista. A desvinculação entre conquistas individuais e conquistas do grupo fica evidente pela especificidade e pela vinculação a áreas de não preocupação (economia e arte, por exemplo) justamente por se ressaltar no grupo valores como amizade; além disso a negação desse tipo de orientação, que foi inclusive observada em grupos precedentes que se estruturavam justamente a partir de centros de interesse nas artes ou outras doutrinas definidas e comum a todos os membros, aparece na referência de Woolf a grupos como os Lake Poets e os Pré-Rafaelitas.                                                                                                                              Essa negação incisiva na ausência de teoria, sistema ou princípios em comum torna-se relevante para compreender a essência do grupo, pois se caso o fosse isto iria na contramão da informalidade por eles pretendida e assumida.                        
     Temos que considerar o movimento iluminista burguês e tudo aquilo que o constituía. E temos que pensar, mais ainda, no valor supremo que este movimento projeta no indivíduo civilizado que deveria, em síntese, se apropriar de suas prerrogativas. Williams (2011, p. 224) nos apresenta alguns dos ideais iluministas ou contra algumas coisas que ele lutava: "[...] convencionalismo, a superstição, a hipocrisia [...], a ignorância, a pobreza, a discriminação sexual e racial, o militarismo e o imperialismo". Portanto, temos que considerar que a sociedade tal como se desenhava, possuía uma ideologia burguesa que desenvolvia uma retórica de luta contra males historicamente constituídos, e que deviam ser combatidos pela civilização do homem comum; mas, por outro lado, fechada em sua redoma classista mantinha sitiada as classes desfavorecidas, impedindo seus membros de alcançarem esse status de civilizados.
     Há de se notar que esse indivíduo civilizado poderia lutar não apenas contra aquilo que seria herança de um tempo anterior, notadamente as trevas do passado, se considerarmos as coisas pela perspectiva tipicamente religiosa,  mas até mesmo contra as injustiças do tempo presente e do porvir, aquelas que estariam embasadas num jogo de interesses ou em lutas políticas e ideológicas geradas pelas elites dominantes. Desta forma, a produção do homem civilizado seria contraproducente do ponto de vista da dominação. A dissidência de parte desta elite, que dela se separa e adota um pensamento mais autônomo que tem por fim e se justifica na materialização do parecer iluminista, torna-se o ponto zero de nascimento do grupo em questão.  Com efeito, ao insinuar a negação a uma teoria, a um sistema ou princípios em comum, o grupo ressalta sua autonomia pensante, sua liberdade, sua não filiação dogmática e elitista. Ou seja, o etos de Bloomsbury, aquilo que o representa, é a projeção máxima desse homem civilizado que se libertou de forma plena e total das amarras do passado, desenvolvendo um pensamento liberal.                             Assim, é justamente aquilo que o grupo nega que revela o que ele é. Não estamos falando de tratamento de dados estatísticos, nem mesmo fazendo comparações de natureza quantitativa ou aplicando qualquer outro método que possa validar uma interpretação baseada em dados concretos, apalpados e manuseados, mas de um registro informal cuja composição deixa sobressair a importância histórica do grupo. Nesse sentido, torna-se relevante compreender a distância histórica como aspecto central que permite elucidar sua relevância. O que temos são "indivíduos civilizados", reunidos como um grupo dissidente, promovendo intervenções significativas de âmbito social.                                                                             
      Por outro lado, torna-se relevante pensar na importância das individualidades do grupo, porque se elas eram consideradas irrelevantes pelo próprio grupo, não podem, contudo, passar despercebida pelo pesquisador que, tendo encontrado o viés civilizatório como núcleo de suas ações, acaba por englobar a totalidade dos anseios civilizatórios do homem, notadamente a liberdade de expressão, a tomada de consciência histórica, o desenvolvimento de uma arte mais livre e autônoma, o desenvolvimento científico, etc.   Como afirma Williams (2011, p. 229): "Bloomsbury estava articulando uma posição que, mesmo que apenas em momentos cuidadosamente diluídos, tornar-se-ia a norma civilizada".                           

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS   

 

     Sem dúvida há distinção no que tange a análise de um grupo formal cujas normas e regras de funcionamento são definidas e regulamentadas, e um grupo informal no qual nem sempre estas normas e regras estejam claras.                         
   O texto nos encaminha para uma reflexão que diz respeito às mudanças ocorridas em determinados sistemas sociais, e que podem surgir de pequenos grupos dissidentes que pulverizam tais mudanças a partir de um deslocamento ou ruptura informal, uma organização sem pretensões ou intenções reconhecidas. E o próprio fato destes grupos se formarem orientados para discutir questões originadas em seus grupos de origem, abre espaço para compreender sua relevância a partir do impacto que causam nas matrizes do pensamento social, que no caso de Bloomsbury atingiu a ideologia burguesa que formava a classe dominante do início do século XX.
      O texto nos mostrou a necessidade de se considerar grupos pequenos a partir de uma visão mais totalitária, que considere a ordem social geral e procure descortinar as relações destes grupos com esta ordem mais ampla. É necessário descobrir os vínculos, as dissidências, desvendar as razões, os porquês, pois ao ancorar uma pesquisa sobre esta base mais ampla torna-se possível estabelecer parâmetros e diretrizes melhor fundamentados.                                                                                Embora possa não haver uma regularidade que permita estabelecer princípios de pesquisa como nos casos de grupos maiores, contudo há sempre aspectos que deixam evidentes as tensões que sustentam as discussões que se realizam no interior destes grupos e que denunciam seus alinhamentos e seus conflitos. Além disso, mesmo no caso em que a informalidade esteja na retórica de suas respectivas formações, haverá sempre insinuações que podem sinalizar um caminho efetivo para a realização da pesquisa.                                                                                                    No caso de Bloomsbury, a negação de suas influências e de suas intenções formativas possibilitou compreender o razão de ser de sua organização e abriu caminho para aprofundar o entendimento de seu valor histórico.                           
 

REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Raymond. Formações. In: WILLIAMS, Raymond. Cultura. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.

__________. O Círculo de Bloomsbury. In: WILLIAMS, Raymond. Cultura e materialismo. São Paulo: UNESP, 2011.

 

[1][1] Interessante a analogia do caráter imperceptível desta realidade "tão imperceptível quanto é imperceptível aos mamíferos o ar e aos peixes a água em que vivem" (Woolf apud Williams, 2011, p. 218)