OLIVEIRA, Paulo de Tarso Roma de. Reflexão do modelo sociopsíquico a partir de representações particularizadas da generalidade do fato social.

 

RESUMO

Até que ponto o fato social sobrevive como tal, quando submetido a certas supressões de sua manifestação plena por conta da natureza psicológica do sujeito? Por outro lado, que conexão podemos fazer entre o fato normal e o fato patológico, se o primeiro não consegue se estabelecer integralmente no sujeito? Estas são algumas das questões propostas no presente artigo, que serão refletidas a partir da proposição do próprio Durkheim ao referir-se ao modelo sociopsíquico e as formas particulares por meio das quais a generalidade do fato se manifesta. O desdobramento desta reflexão será a promoção de um olhar às manifestações contrárias ao governo, levadas a efeito por significativo contingente da sociedade brasileira no dia 15 de Março de 2015. Surge a pergunta: atos espontâneos ou coerção patológica?

 

1. A DUPLA DIMENSÃO DA GENERALIDADE

Parte integral da teoria do fato social proposta por Durkheim (2004), a generalidade se manifesta numa dupla dimensão: inicialmente se instaura processualmente de maneira indiscriminada, uma vez que todos são submetidos aos seus efeitos coercivos. Ao ser interpretada a partir de um processo solidário, inicialmente não são consideradas as formas particulares como esta generalização se materializa em cada um individualmente. Nesse sentido, de acordo com o autor: “a generalidade não serve para caracterizar os fenômenos sociológicos” (Durkheim, 2004, p. 35).

            A segunda dimensão refere-se ao seu aspecto refratário, observado no sujeito recipiente do fato social. É esta questão que leva o autor a afirmar a existência das “encarnações individuais” (ibidem). Essa dualidade observada na confluência entre o processo e o estabelecimento da generalidade e, consequentemente, a materialização do fato social, é o que consolida o aspecto sui generis de sua manifestação.

            Tais proposições sugeridas por Durkheim (2004) nos levam ao entendimento do que ele próprio propõe ao afirmar que “o fato social é distinto das suas representações individuais” (ibidem). Deparamo-nos, assim, com uma fragmentação de um mesmo fato social em formas particulares de si mesmo. O exercício de qualquer pesquisador em deslocar o fato social das forças particulares que o isolam e o deterioram de sua pureza inicial, irá revelar que o fato social primário do qual se originam as diversas representações particulares de sua manifestação, distancia-se de forma contumaz destas mesmas representações na medida em que as formas particulares se fragmentam e se revelam díspares entre si (Jones, 1986).

            Consoante a tais considerações, destacamos aqui Redfield (1956, p. 400): “A sociedade atua porque seus membros tem em volta de si um universo que para eles faz sentido”. Essa convicção pode estar totalmente deslocada de um senso comum e em estreita familiaridade com a percepção de determinados grupos[1] que constroem esses sentidos em suas específicas células sociais. A ideia de grupo é relevante porque costura uma vinculação de poder no tocante às relações entre pessoas, pois ao se formarem grupos fica evidente a hierarquia de ideias e conceitos que, dependendo do tipo de grupo, materializam-se em fatos sociais exteriores, coercivos e generalizados (Dahrendorf, 1969).

Por outro lado, Litaiff e Crépeau, veem o fenômeno grupo a partir de uma visão racionalista desenhada pelo próprio Durkheim, e afirmam: “a mediação entre sujeito e objeto é efetuada pelas representações coletivas [...]” (Litaiff e Crépeau, 2011, p. 63). Enfim, o grupo é uma necessidade quase fisiológica do ser humano. Como afirma Elias: “A pessoa não tem oportunidade, necessidade, nem capacidade de ficar só” (Elias, 1994, p. 108)

            Outro aspecto a considerar é a questão de que a taxa de reprodução de um fato tende a fornecer elementos que possibilitam isolá-lo e quantificá-lo, porém aí teremos um problema factual, pois o fato social que pode ser isolado estatisticamente, não pode, contudo, representar formas gerais e regulares de sua manifestação, pois estas ocorrem destituídas da convenção e do consenso que existe em sua versão primária. É o caso, por exemplo, do suicídio, levado a cabo por motivos totalmente distintos, bem como por modus operandi diversos. Para Durkheim (1978), a confluência entre o homem físico e o homem social, e o resultado de uma dispersão geradora de desequilíbrio e desestabilização no tocante a determinados fulcros ilusórios e certas fantasmagorias serão determinantes para desencadear o processo suicida, uma vez que os “rumores sociais” impositivos de modelos e regras de viver se farão sentir de forma imperiosa. 

Outros aspectos irão revelar essa incongruência, tais como temperatura, período do dia, diferença de padrões comportamentais entre homem e mulher e os reflexos que essas regularidades afetam aspectos estritamente sociais – vida social com maior ou menor efervescência ou estagnação, vida coletiva, tempo de repouso, trabalho no campo ou na cidade, tipo de atividade social e suas relações diretas com as variedades temporais, etc. (Durkheim, 2000)

            Nesse sentido, Durkheim fala em não existência de vínculos sociais passiveis de gerar imitação, fala de procedimentos gerados sem contiguidade física, em vida representativa, vinculando essas questões a causas prováveis de suicídio. Algumas questões relacionadas à generalidade atuam numa assimilação que pode não ser física “nivelamento entre consciências” (Durkheim, 2000, p. 131). O autor promove o rastreamento do suicídio e o enquadra como fato social, não obstante atinja apenas o indivíduo e se processe internamente nele, a partir de recortes sociais estatísticos que revelam sua causa originária em fatores típicos observados na vida coletiva. 

Portanto, do ponto de vista da taxa de reprodução de determinado fato, Durkheim afirma:

 

“Como cada um destes números compreende todos os casos particulares sem distinção, as circunstâncias individuais que podem ter influência na produção do fenômeno neutralizam-se mutuamente e, por conseguinte, não contribuem para determina-lo. O que ele exprime é um certo estado da alma coletiva” (Durkheim, 2004, p. 36).

 

            Ou seja, fenômenos que são considerados fatos sociais precisam ser tratados como fatos sociais numa dimensão geral e, por outro lado, entendidos como fatos sociais subjetivos a partir da particularidade que assumem em cada um que os manifesta. Durkheim atesta que as manifestações “reproduzem, em parte, um modelo coletivo” (ibidem).

            Há um intenso jogo de palavras do autor para consolidar a questão. Inicialmente ele afirma “dir-se-á que um fenômeno não pode ser coletivo se não for comum a todos os membros da sociedade ou, pelo menos, à maior parte deles, portanto, se não for geral” (Durkheim, 2004, p. 37). Aqui estamos na dimensão do processo, e a coletividade não significa necessariamente a reprodução igualitária do fenômeno, comum a cada indivíduo. Há aqueles que podem, por razões pontuais, esquivarem-se de ser atingidos por ele enquanto fenômeno objetivo.

Podemos inferir, então, que as próprias formas de sua manifestação podem, de certo modo, deixar de representá-lo, pois no caso de uma pessoa que se comunica por meio de sinais por consequência de certas patologias neurais, ou no caso de um cego que lê um código em Braille, estamos diante de pessoas que socializam a mesma forma de comunicação que no âmbito exterior materializa-se por uma linguagem socialmente distribuída, porém sedimenta-se em cada um a partir de fórmulas particulares totalmente desvinculados do modelo coercitivo da língua padrão.

            Posteriormente o autor afirma: “se é geral é porque é coletivo, e nunca coletivo por ser geral” (ibidem). Aqui há o contrassenso de uma suposição da coletividade por consequência da generalidade. Se assim o fosse teríamos uma reprodução idêntica em todos os que manifestam o mesmo fenômeno e ficaríamos sem nenhum parâmetro para sustentar a ideia das subjetividades. Porém, o fato da coletividade materializar, a partir de formas particularizadas o fato social, pressupõe o fenômeno como uma entidade não asfixiada em si mesma, ou seja, ele nasce, se consolida e se transforma, revelando as cicatrizes.

            Finalmente, temos a seguinte formulação: “está em cada parte porque está no todo, e não no todo por estar nas partes” (ibidem). Temos uma clara indicação da existência de um fenômeno primário que se sedimenta em tudo e em todos, e por outro lado, se singulariza na esteira dessas manifestações. Ora, “parte” e “todo”, se considerarmos a dependência que existe entre um e outro, por outro lado revela que o todo sem as partes não pode existir. É como um carro (o todo) constituído por milhares de peças (as partes). As peças não podem jamais refletir o carro, porque o que este faz está totalmente fora de sintonia com o papel que cada peça exerce de forma particular para que o carro seja carro e haja como tal. O manual do veículo tem o próprio veículo (o todo) como fator menos importante, destacando a mecânica e a manutenção (que também são partes incorporadas ao todo, mas que operam autonomamente, mais em relação às partes [as milhares de peças]) como essenciais para mantê-lo em funcionamento, voltadas a prescrições como o tipo de óleo a utilizar, o tipo de combustível, nível de calibragem dos pneus, frequência de revisão, etc.

Portanto, o fato social, não obstante generalizado, não pode se manifestar no todo, porque ele está restringido pelas partes que o customizam de forma particular. Em suma, há a formação de uma consciência coletiva que se instaura a partir de um sistema determinado que adquire vida própria, mas entendamos que essa consciência só pode ser encontrada na transcendência do fato e na aglutinação de sua objetividade, jamais no recorte individual e na apreensão representativa do que ele seja nos sujeitos que o acolhem.

Oportuno ressaltar a questão da normalidade do fato social como marca sutil da generalidade. Essa normalidade, porém, longe de ser um processo de aceitação e assimilação é mais um fenômeno de falta de consciência do próprio fato e do seu poder coercitivo. Nem mesmo a sanção prevista a quem corrompe suas diretrizes não é capaz de revelar sua natureza, pois a normalidade torna-se tão abrangente que a sanção torna-se também, dadas as devidas proporções de contiguidade (entre ação e reação), um fenômeno normal.

Por outro lado há também os elementos circunstanciais promotores dos fatos sociais, pois um fato social generaliza-se porque existem circunstâncias que levam a isso. Dessa forma, um fato não deixa de ser fato se ele próprio já traz em si a sanção da coletividade.

 

1.1. OS FENOMENOS SOCIOPSÍQUICOS

            A simbiose entre social e psicológico irá aparecer na teoria do fato social, como forma de explicar a desintegração por ele sofrida ao percorrer o caminho de encontro ao agente receptor:

 

“Quanto às suas manifestações privadas, elas tem bem algo de social, uma que reproduzem, em parte, um modelo coletivo; mas cada uma delas depende também, e numa larga medida, da constituição orgânico-psíquica do indivíduo, das circunstâncias particulares em que está colocado. Não são fenômenos propriamente sociológicos. Pertencem ao mesmo tempo aos dois reinos, e poderíamos chamar-lhes sociopsíquicos[2] (Durkheim, 2004, p. 37).

 

            Durkheim (2004) dedicou especial atenção no aspecto distintivo entre um fato que por sua natureza é definitivamente social e um fato que é de natureza psicológica. Essa dimensão psicológica é abrangente porque inclui o chamado “modelo coletivo” como constituinte de sua formação. Supomos, então, que o fato social, embora genuinamente social em sua manifestação primária, acopla-se numa plataforma coletiva que exibe formas particulares de interpretá-lo. A questão é: continuamos tendo um fato social? Durkheim, ao fazer a distinção entre fato social e estados da mente coletiva, descaracteriza um fato social por não poder mais enxergar nele as imposições esperadas no receptor?

            O autor, embora faça menção à coletividade, contudo enxerga nessa coletividade formas particulares de manifestação do fato social. É incoerente afirmar que uma comunidade de fé manifeste esta mesma fé, disseminada entre todos, da mesma maneira, pois cada um desenvolverá formas particulares de se integrar aos ritos ali prescritos. Portanto, a religião como fato social distingue-se da religião em suas múltiplas manifestações de fé. Embora paradoxal, tal equivalência minimiza o efeito desintegrador do fato social. A relativa ação social de certos fatos sociais esbarra, portanto, na maneira como este indivíduo está constituído psicologicamente, havendo então uma simbiose entre o social e o psicológico que produzirá as formas elementares de reprodução dos fatos sociais que o coagem.

            Logo, determinado fenômeno é considerado social porque seu nascedouro é o nicho social, tornando-se particular a partir do momento que se isola no íntimo do indivíduo, que dele se apropria e o reedita – ele está só, deixou de ser social – desenvolve sua maneira particular de manifestá-lo. É nesse sentido que Durkheim investiga um fato social a partir dos fenômenos que precedem sua manifestação no indivíduo, pois se for o contrário, pode ser que o fato social identificado seja nada menos que uma manifestação particular, já transformada, adaptada e aprisionada ao perfil psicológico do sujeito. A partir de então teria que ser contemplada por outras escolas do pensamento, como a Psicologia, por exemplo, que é uma ciência que, embora considere o social, contudo se consolida pela análise singular do fenômeno, rastreando-o na subjetividade de cada um. Ou seja, o fato social tem sua objetividade preservada apenas quando é identificado em sua gênese, antes de ser vilipendiado pela natureza humana.

 

1.2. O NORMAL, O PATOLÓGICO E A QUESTÃO DA TAXONOMIA

            Interessa-nos incluir aqui uma discussão a respeito dessa dualidade presente no fato social, porque compreender essa transição de um estado de normalidade para um estado de patologia ajuda a interpretar o reverso do processo de desintegração do fato social na subjetividade do sujeito, pois também esse sujeito, do ponto de vista de sua natureza psicológica, é tomado de sobressalto em relação à violência feita a si pelas forças externas que o intimidam, interpondo-se entre ele e sua natureza.

            Se, como vimos, a precipitação do fato social não equaliza as formas de sua manifestação, somos levados a questionar se as sobreposições que, em última instância, são opostas a ele, podem ser consideradas “o fato social” ou se devem ser enquadradas em alguma categoria específica dele. Percebemos que não é fácil construir uma taxonomia que esteja fundamentada nestes processos variáveis, de natureza interna, pois acabam nos levando para um campo de reflexão que é mais psicológico do que social. Porém, é fato que as predisposições cognitivas e intelectuais geradas a partir dos fenômenos sociopsíquicos dão margem a uma infinidade de segmentações a partir do perfeito entendimento dos mecanismos psicológicos de desconstrução-reconstrução. Assim, quando pensamos nas possibilidades de segmentar o fenômeno, somos levados inicialmente a uma variável de natureza psicológica, que podemos definir como “desestruturação do fato social”.

            A ação subsequente à patologia do fato social pode se reverter num processo de integração a ele. Esse tipo de fato social não significa necessariamente que a desconstrução seja o processo de negar o fato, senão o de integrar-se a ele. Nesse sentido, o sujeito acometido por este processo estaria, na verdade, vivendo certo nível de patologia em relação ao fato em seu estado puro, pois estaria em oposição a ele, em situação de resistência e enfrentamento. Assim, a desconstrução seria a forma psíquica de resolver a tensão entre o fato social puro e sua negação, promovendo uma integração plena do sujeito. Levando em consideração que muitos não passam por este processo, resistindo indefinidamente a submeter-se ao fato social, embora vivam sob certo grau de influência dele, ou seja, o vivam de forma parcial, temos que admitir que neste caso a consolidação do fato social a partir da dimensão psíquica estaria revelando uma forma totalmente estranha de sua manifestação, e que esta forma estaria descaracterizada da forma primitiva, original; ou seja, neste caso o processo serve apenas para revelar a gestação de um novo fato que vem à tona pelo processo de descontrução-reconstrução pelo qual passa o indivíduo, que se torna totalizante e ao mesmo tempo repressivo em relação ao seu estágio outrora resistente.

            Ora, esse fato social revelado por desestruturação acaba promovendo a integração do sujeito ao fato social primário, ao qual antes resistia. São bastante oportunas as considerações da teoria de Piaget a esse respeito, especialmente as acoplagens cognitivas que vão sendo sobrepostas cada vez que o sujeito sobrepõe em sua estrutura cognitiva novas formas de entendimento da vida social[3].

            No entanto, isto pode não ocorrer. Teríamos então o “fato social por incerteza”. Este segue o caminho contrário do seu antecessor, embora se processe pelos mesmos mecanismos, pois é o processo de desvinculação entre o sujeito e o fato ao qual estaria submetido, e que por questões que podem ser análogas à antecessora o leva a dele se desvincular. O que é revelado são alternativas que podem levar ao desencanto e, em consequência disto, desencadear um processo de superação e substituição, inda que o preço das sanções sejam pagos. Se o processo antecessor revela um fato que estava oculto, desconhecido, este por sua vez tende a reorientar o sujeito a um fato social já revelado, que melhor atenda suas expectativas, pois o novo fato precisa coadunar-se com o anterior, pois o que levou à separação foi tal somente uma “incerteza” de sua validade social.

            Em ambos os casos o fato é patológico mais em relação a não conformidade observada no processo do que às consequências práticas observadas no sujeito.

            É importante destacar o viés de generalidade que esses fenômenos possuem em comum, pois estamos na dimensão puramente processual para compreender fenômenos que são tipicamente replicados na sociedade, com níveis de frequência distintos.

            A patologia pode, portanto, revelar situações não formais de assimilação do fato social quando disseminado via generalidade. Deixaria de ser patologia no momento em que fossem revelados os estados reais (ou alternativos) nos quais é representado. Vejamos essa importante constatação do próprio Durkheim, considerando-a hipoteticamente do ponto de vista da constatação do fato patológico:

 

“Um fato social não pode, pois, ser considerado normal para uma espécie social determinada senão em relação a uma fase, igualmente determinada, do seu desenvolvimento; por conseguinte, para saber se ele tem direito a esta designação, não basta observar a forma sob a qual se apresenta na generalidade das sociedades que pertencem a esta espécie; é ainda necessário ter o cuidado de as considerar na fase correspondente de sua evolução” (Durkheim, 2004, pp. 75 e 76).

 

            Por outro lado, precisamos detectar o nível de pressão psicológica que certo fato social impõe sobre o indivíduo, pois a patologia pode também significar um grau de não conformidade que em si mesmo não é patológico. O próprio Durkheim manifestou certa resistência a uma moral católica com a qual ele não se conformava, e por isso vivia um processo patológico de desintegração com a moral vigente, o qual o impulsionou a construir um parâmetro moral que lhe fizesse oposição. A respeito de Durkheim, Tiryakian escreve: “[...] podemos dizer que sua missão mais desafiadora foi a formulação de uma moral de bases científicas, que substituísse de uma vez todas a tradicional moral cristã e a autoridade da igreja católica” (Tiryakian, 1980, p. 254).

            Se, como o próprio Durkheim (2004, p. 77) afirma a respeito da generalidade “é ela própria um fenômeno explicável”, somos então induzidos a concluir que as múltiplas formas pelas quais se dissemina e se desintegra um fato social não são senão formas particulares que o sujeito desenvolve de se relacionar com ele. Nesse sentido, a autonomia do indivíduo estaria no fato dele possuir liberdade de transformar o fato social ao seu bel prazer, que neste caso seria ao bel prazer de suas características psíquicas e sociais. E essa transformação poderia ser sua total desintegração.

            Desta forma, o que seria determinado fato social específico no processo de generalização, no processo de coerção, que teria como ambiente de sua realização as áreas nebulosas do psique humana, deixaria de sê-lo e se transformaria à imagem e semelhança do agente que o recepciona.

 

2. A IMPOSIÇÃO DA CHAMADA

            Cabe-nos aqui ressaltar o papel preponderante das redes sociais na convocação para o ato de resistência ao governo Dilma. A trombeta soou nos quatro cantos chamando todos às ruas, e, diga-se de passagem, a própria rede social mostrou que aqueles que não saíram fisicamente também estavam convencidos da necessidade de resistir.

            Assustada com a repercussão que a convocação teve, o próprio PT se antecipou à marcha instituindo sua marcha particular pela via de Centrais e Movimentos sociais, cunhada pela mídia de "resposta antecipada" (Costa e Barrucho, 2015). Segundo Rolli (2015) a CUT propôs atos com o objetivo de blindar a Dilma em 24 capitais.  

 

2.1 AS FORMAS PARTICULARES DE MANIFESTAÇÃO

            Interessa-nos as formas particulares de manifestação, pois justamente elas fornecem material para refletirmos sobre a relação entre o fato social primário e suas múltiplas segmentações. De forma alguma vislumbramos uma marcha de robôs alinhados nos gestos e nos pensamentos, ao contrário, uma diversidade de formas particulares desencadeadas por motivos que podiam à priori estar longe do objetivo inicialmente proposto.

            Durkheim (2004), na conjuntura espécie-fase propõe a dispersão temporal do caráter objetivo do fato social, impondo-nos reconhecê-lo em seu aspecto sincrônico, evolutivo. O autor chega a duvidar de sua classificação se, no caso de identificada determinada fase, ser observado que seu caráter primário se diluiu. Ora, a espécie sociedade consegue singularizar determinados fenômenos a partir da aceitação tácita de suas imposições coercitivas, no entanto não consegue materializar o fenômeno em toda sua escalada de manifestação já que ao generalizá-lo tem que enfrentar as subjetividades.

            Em muitos casos pode haver o resgate do fato social por uma análise de caráter sistêmico, sem que seja possível validá-lo como tal em suas formas elementares, pois os sujeitos, cada um a seu modo, mitigam esta possibilidade.

            É nesse sentido que os estudos desenvolvidos por Durkheim a respeito do modelo sociopsíquico torna-se relevante para acomodar novos pareceres em relação ao fato social, pois ficar o conceito fechado em torno de teorias fundamentalistas, estagnado e condenado a uma forma unilateral de interpretação acaba por esconder características ímpares que podem ser reveladas pelo análise a partir do viés cognitivo dos sujeitos: "a sociedade lida com homens que geralmente não se conduzem nem como engenheiros, nem como especuladores atentos" (Durkheim, 2008, p. 590). O fato social, então, agora fato do sujeito, revela-se plenamente em sua objetividade lógica, podendo ser compreendido na medida em que se efetuam análises particulares de determinado fenômeno.

            É por isso que vimos formas violentas (grupo de nazistas com soco inglês), grupo de jovens com cara pintada gritando "Impeachment - fora Dilma", grupos sugerindo a volta da ditadura militar, grupos focados na corrupção, grupos focados na instabilidade econômica, sujeitos levados pela multidão sem motivos pessoais de participarem do protesto, panelaço, acender e apagar luzes, vaias, gritos, choros. Se aceitarmos que todos estavam nas ruas pelos mesmos motivos celebrados nos arautos sociais, temos que aceitar que todos os tipos de manifestação observados giravam em torno do mesmo objetivo.

            Há de se considerar ainda o fato de que até mesmo dentro de grupos distintos em relação à grande massa, foram observadas diferenças pontuais reveladas na forma de vestir e de se comportar durante o protesto.

            Podemos considerar também que um ajuntamento como o que presenciamos pode desencadear processos de desconstrução-reconstrução totalmente particulares. Novos sujeitos sociais nascem a partir de movimentos como estes, aliciados pelo próprio espírito de indução que toma conta do coletivo. Evidente que processos como estes só podem ocorrer se for identificada uma patologia social repentina, inesperada, que ocorre à deriva do sujeito, fora de seu controle, que arregimenta seu intelecto e lhe impõe uma mudança em sua postura e forma de ser.

            É muito difícil construir uma taxonomia deste fenômeno, tamanho seu perímetro de manifestação. Somente pesquisas in loco podem revela-lo em sua totalidade. Contudo, podemos presumir, com base no olhar empírico, que o psique se sobrepõe ao social, e somos obrigados a validar o parecer de Durkheim (2014, p. 35): "“a generalidade não serve para caracterizar os fenômenos sociológicos”.

            Enfim, podemos também afirmar que o fato patológico, mesmo oculto, conseguiu se revelar na apostasia em relação às crenças que motivaram a passeata, pois socialmente falando tivemos um elemento que norteou todo o processo, o qual só conseguiu ficar de pé no imaginário coletivo, sucumbindo nas subjetividades.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A similaridade entre o fato social e fatores de natureza orgânica e psicológica, foram tratados no presente artigo a partir da confluência entre suas manifestações, que situam-se numa dimensão externa do indivíduo, e as formas particulares que se manifestam em cada um. De fato, um remédio, para que seja administrado para tratar de certa patologia, deve levar em consideração as características do paciente, pois embora seja o mesmo remédio, ao ser ministrado pode ter efeitos diferenciados, pois o organismo humano singulariza-se por conta de certas circunstâncias que o modelam.

            Nesse sentido, o fenômeno sociopsíquico demonstrou que o fato social, do ponto de vista da generalidade, sofre a interferência da subjetividade observada nos sujeitos, e que a descaracterização desse fato social passa a ser uma consequência natural de fenômenos mais psíquicos do que sociais, seja os de natureza grupal e coletiva, seja os de natureza singular, de fenômenos inerentes ao indivíduo em sua subjetividade.

 

REFERÊNCIAS

BERTOL, Carolina Esmanhoto; SOUZA, Mériti de. Transgressões e adolescência: individualismo, autonomia e representações identitária. In: Periódicos eletrônicos.em.Psicologia.(PEPSIC)..Disponível.em:.<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98932010000400012&script=sci_abstract> Acesso em: 09 Mar 2014.

COSTA, Camilla; BARRUCHO, Luis Guilherme. Paulista é cenário de ´resposta antecipada´ a protesto pró-impeachment. BBC Brasil. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150313_protestos_paulista_cc_lgb> Acesso em: 22 Mar 2015.

DAHRENDORF, Ralf. Homo sociologicus. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.

DIAS, Reinaldo. Fundamentos de sociologia geral. 5 ed. Campinas, São Paulo: Alínea, 2011.

DURKHEIM, Émile. Sociologia. RODRIGUES, José Albertino (Org.). São Paulo: Ática, 1978.

__________. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2004.

________. As etapas do pensamento sociológico. 7 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. SCHRÖTER, Michael (Trad). Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

JONES, Robert Alun. Émile Durkheim: An introduction to four major works. Beverly Hills, CA: Sage Publications, 1986. pp. 60-81.  Disponível em: <http://durkheim.uchicago.edu/Summaries/rules.html> Acesso em: 08 Mar 2014.

LITAIFF, Aldo; CRÉPEAU, Robert. Durkheim e o pragmatismo: verdade, sociedade e indivíduo. In: OLIVEIRA, Márcio de; WEISS, Raquel. David Émile Durkheim: a atualidade de um clássico. Curitiba: UFPR, 2011.

REDFIELD, Robert. Como atua a sociedade humana. In: SHAPIRO, Harry L. Homem, cultura e sociedade. Rio de Janeiro: Fundo de cultura, 1956.

ROLLI, Claudia. CUT define atos de ´blindagem´ a Dilma em 24 capitais. In: Folha de.São.Paulo.online..Disponível.em:                                           <http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1600873-cut-define-atos-de-blindagem-a-dilma-em8203-24-capitais.shtml> Acesso em: 21 Mar 2015.

TIRYAKIAN, Edward A. Émile Durkheim. In: BOTTOMORE, Tom; NISBET, Robert. (Orgs). História da análise sociológica. Rio de janeiro: Zahar editores, 1980.

 

[1] Insiro aqui a noção de grupo, inicialmente por ser este um ramo de estudos da Sociologia, e também pelo fato do indivíduo ser, desde o processo de socialização primária, parte integral de um grupo (a família), passando por outros grupos específicos (escola, igreja, etc.) e agregando-se a outros grupos na medida em que se desenvolve. “O processo de socialização que o tornará um indivíduo único e, ao mesmo tempo perfeitamente integrado na sociedade, ocorrerá dentro dos grupos sociais que pertencera independentemente de sua vontade” (Dias, 2011, p. 111).

[2] Grifo meu

[3] Em Piaget ocorre o mesmo. O processo de desconstrução seria a fórmula psíquica promotora do ingresso do sujeito ao seu equilíbrio cognitivo e também social, portanto integradora. Na teoria de Piaget esse período de referente apatia e distanciamento, no qual ainda não há a integração é considerado normal, fase de um processo natural de desenvolvimento. Bertol e Souza (2010, p. 838) o classificam como “período de transição no qual a transgressão é natural”.